o vencedor leva tudo
te convencendo de que os casamentos fracassados da televisão são românticos
Eles se amam, mas não se suportam. O carinho é engolido pela ambição e a disputa de poder. São os únicos que se entendem no mundo, e enxergam no outro o que mais odeiam em si próprios. Se completam porque são opostos, mas a física explica com todas as letras como nada impede a polaridade do ímã. Eles são atraídos um pelo outro apesar do orgulho, e do egoísmo, e da competitividade – ou talvez, por conta disso.
De acordo com a definição não tão acadêmica da palavra, o termo failmarriage compreende um casamento que se funda na atração quase doentia e irrefutável entre dois indivíduos. Esse substantivo comporta casais fictícios, em sua maioria no meio televisivo, mas é flexível para o espectador moldá-lo como bem quiser. Muitos descrevem a trope como o estado de ausência de amor em uma relação, mas anos de tweets defendendo os meus casais televisivos marcam a minha discordância com afinco. O fato de um casamento ser fadado ao fracasso não anula a experiência deliciosa que é assistir ele se autodestruir em tempo real. E, ao mesmo tempo, não significa que o que hoje é banhado em ódio e desprezo não tem uma pitada de amor na sua composição. E eu vou te provar isso, aqui e agora. O vencedor leva tudo e eu não vou sair do campo de batalha de mãos vazias.
o failmarriage clássico
Em um texto muito interessante dessa plataforma, a autora argumenta que o que prende duas pessoas em um casamento fracassado “não é a obrigação legal, social ou religiosa de permanecerem juntas, como acontecia quando os casamentos infelizes eram retratados na arte antes de o divórcio ser legal, comum e viável”, mas sim a escolha de se deliciar na miséria provocada pelo seu amado. É claro, essa escolha diz mais sobre a relação do personagem consigo mesmo e com o que ele acha que merece receber da vida. Mas o elo criado entre as duas figuras, que se enxergam uma na outra e se detestam por isso, é mais forte do que qualquer terapia de casal e qualquer rebelião em nome da liberdade.
Para a história da televisão, quem abriu as portas para a construção dessa dinâmica tão deliciosa quanto trágica foram Tony e Carmela Soprano, da mundialmente aclamada e sempre no topo das listas The Sopranos (HBO). Um chefe da máfia de Newark (NJ) e uma católica com dotes culinários lidam com a culpa da mesma maneira – esbanjando bens materiais e se contentando com distanciamento emocional. Tony e Carmela se conheceram enquanto adolescentes, em uma realidade permeada pela sombra dos criminosos de origem italiana que comandam a região de Nova Jersey. Ao invés de inocência e curiosidade, a relação deles começou a partir de uma obsessão geracional com imagem e poder.
O que marca esse relacionamento televisivo é o desamparo que a instabilidade socioeconômica causa nas relações entre as pessoas. Eu (ainda) não sou especialista, mas diversos artigos críticos destacam justamente esse ponto como a força motora de The Sopranos. O que David Chase fez muito bem na construção desse casamento quintessencial para a televisão foi elevar a tensão de uma América completamente perdida ao nível máximo, e traduzir isso em brigas aos gritos e crises de ciúmes e choros compulsivos. Um artigo brilhante do The Vulture argumenta:
“Tony e Carmela simplesmente não conseguem fazer a coisa certa; eles não conseguem aprender com os erros nem fazer boas escolhas, não conseguem ser gentis, não conseguem agir com dignidade, não conseguem demonstrar misericórdia sem se arrependerem, não conseguem estar presentes sem se sentirem vulneráveis e expostos. Eles são um monstro de duas cabeças movido pela vergonha, bebês crescidos e monstruosos que são desajeitados e cruéis um com o outro e nunca amadurecem.” - Tradução feita por mim!
Existem outros exemplos de failmarriages que se encaixam em princípios parecidos aos destacados – Don e Betty Draper1 de Mad Men (AMC) (que são particularmente um dos meus favoritos, mas acabam se levando ao divórcio) e Catherine e Peter2 de The Great (Hulu) –, em que os dois participantes da relação se recusam a mostrar empatia quando o outro demanda essa vulnerabilidade, apenas quando ele mesmo acha necessário. Além disso, os dois relacionamentos destacados também coexistem numa sociedade movida pelo status quo, mesmo tendo motivações diferentes. Mas, talvez, se Tony e Carmela não tivessem quebrado essa janela, o futuro da televisão não fosse tão cheio de possibilidades como ele parece ser.
o failmarriage contemporâneo
Pulando para a década de 2020, o casamento televisivo fracassado ganha uma nova característica crucial – a mulher acompanha a mudança dos tempos e ganha mais agência na própria vida. Mas, a virada de chave é que essa configuração de relacionamento permite que a mulher explore as complexidades dessa diferença de poder, sem simbolizar o exemplo perfeito da libertação. Longe de ser uma heroína feminina que questiona a limitação no seu papel dentro da sociedade, ela subverte as engrenagens e acha nessa disparidade uma arma muito interessante para enfrentar o campo minado que seu respectivo casamento virou.
Meu exemplo favorito dessa representação é o casamento de Shiv Roy e Tom Wambsgans, da eterna e imaculada Succession (HBO). Esses dois construíram um relacionamento que espelha um verdadeiro inferno – o pedido de casamento acontece no hall do hospital em que Logan Roy, o pai da Shiv, está internado com grave risco. Além de a união ter começado em meio a uma verdadeira guerra de ganância, ações e lugares no trono de um conglomerado midiático, a dupla é formada por completos opostos, que se encontram na sede por sucesso e na necessidade de conforto e companhia em uma realidade crua e rígida até demais.
Assim como Tony e Carmela, o amor deles é guiado por razões que são o mais distantes possível do altruísmo que uma relação saudável precisa ter – mas isso não quer dizer que eles não se amam (eu juro). O que mais se destaca no relacionamento deles é que os dois estão em certo pé de igualdade em termos de acesso a recursos. De certa maneira, a Shiv tem mais poder que o Tom por grande parte da série, por ser filha do presidente da Waystar Royco, o pote de ouro dessa realidade fictícia. E, mesmo tendo toda a chance de fazer a coisa certa e se dar uma vida digna, ela insiste em ficar dentro de um ciclo emocionalmente desgastante, porque sente que seu poder está atrelado ao controle. Para ela, o amor é condicional (por motivos complexos demais para eu desmembrar aqui), e se ela não tem poder, ela não tem nada.
Nesse emaranhado de hábitos ruins e tóxicos, o Tom chega e se coloca como o saco de pancadas perfeito, que não mede esforços para chegar no topo – até se isso significa ter uma parceira que não o suporta. Outros dois exemplos que se encaixam nessa mesma dinâmica são Wendy e Marty Byrde de Ozark (Netflix) e Kate e Hal Wyler de A Diplomata (Netflix). Nessas três uniões, os dois indivíduos são, além de marido e mulher, parceiros em crimes, provações e turbulências. O casal da HBO se diverge e se destaca entre os outros dois porque eles não estão necessariamente fazendo a escolha de continuarem na relação por um bem maior – uma operação de lavagem de dinheiro que dê certo ou a governança dos Estados Unidos –, mas sim porque os benefícios extras são bons demais e, de alguma forma, sobressaem a miséria.
Se você chegou até aqui, eu sei que o failmarriage parece cada vez menos convencional e doentio, mas eu te convido a abdicar das suas limitações e pensar no entretenimento que analisar minuciosamente uma relação tão frágil e, ao mesmo tempo, tão rígida pode te trazer. Existe uma beleza singular em observar duas pessoas que, contra todas as chances, se escolhem toda vez. Tudo bem, elas que se colocaram nesse buraco. Mas, às vezes, a subida é árdua demais, e o conforto da comodidade soa quase como uma declaração de amor se você ouve com atenção.
Eles são bem mais que isso, mas eu os amo tanto e os considero tão complexos que mereceriam um texto exclusivo — quem sabe um dia”
A série é mais atual que as outras duas mencionadas, mas se passa há alguns séculos atrás, então faz sentido entrar na categoria clássica





tony e carmela correram para que tom e shiv pudessem ser nossos pais. amo tanto!!
Mais um texto e análise incríveis! Só eu sei o quanto você vende o peixe do fail marriage há anos kkkkkk e se hoje eu gosto é por sua causa ❤️